Tudo na vida é de fato passageiro…

Mal abriu, já vai fechar...

A idéia era falar da novidade. O fato dela se chamar La Table du Pélican é só uma coincidência… Agora, sério: não é todo dia que a gente dá de cara com o decidiram chamar de “restaurante efêmero”.

Explico: a cerveja Pelforth (exato, a do pelicano) decidiu abrir um restaurante durante três semanas apenas para promover a parceria, dizem eles, entre a cerveja Pelphort e a culinária francesa.

A família está com o maior cartaz!

O endereço é 6, Rue de l’Odéon – no charmoso  Saint Germain de Prés. Estive lá hoje, mas foi só uma visita. O cardápio, sofisticadíssimo, infelizmente só incluía pratos que não fazem exatamente minha cabeça.

Fica o registro, porém, de que o local é uma graça. E estava assim, ó, daquele pessoal que no passado se costumava chamar  de novidadeiros. Ah, e pelicanos a dar com pau (coitadinhos, retiro a expressão).

Restaurante efêmero… Esse pessoal de marketing não tem mais o que inventar.

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A cidade-luz, à primeira luz da manhã.

Com vocês, la lumière.

Frequentemente… tá bom, às vezes… oquei, muito raramente acordo cedinho em Paris e saio pra fotografar. Cidade vazia, ruas lavadas, sol nascendo, essas coisas óbvias que podem dar uma mãozinha (na verdade, uma mãozona) no resultado dos meus cliques. Caminho a esmo até que a fome me obrigue a voltar correndo.

E de fato a fome vem com tudo, pois é esse o período do dia em que a cidade se reabastece. E dá-lhe reabastecimento: caminhões de verduras, caminhões de carnes, caminhões de queijos, caminhões de doces, caminhões de vinhos, etc, etc.

Cerveja chegando na hora do café au lait.

Então, para ilustrar esse post, escolhi aleatoriamente (portanto, sem nenhuma segunda intenção) um desses caminhões… Ah, e me lembrei de uma história: a primeira vez que vi essa cerveja, comprei correndo uma latinha. De volta a Roma, coloquei-a toda feliz no bar da sala – mas minha alegria só durou até a manhã seguinte. Dando pelo desaparecimento da dita cuja, perguntei à diarista onde estava a cerveja. E ela respondeu na lata: ué! tava vazia, eu joguei fora!

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Esta rua é um palavrão.

A rua é um pouco maior que a placa

Já a conhecia de priscas eras, mas voltei lá para algumas fotos. É uma rua de, estourando, 60 metros no 1er Arrondissement.  Perto do Louvre.  Tirando um antiquariado e uma galeria de fotos, não há mais nada de notável na extensa artéria.  Ah, sim, também existe um hotel – mas, por tudo que li, é melhor manter distância dele.

Claro que, por razões óbvias, acho o nome interessante.  Mas mais interessante é o que está por trás dele.  A rua não ganhou esse epíteto porque alguém gostasse da ave, mas sim porque “pelican” era o som mais próximo do palavrão que identificava a rua na idade média.

De fato, até o século XIX muitos logradouros públicos parisienses eram chamados por nomes chulos (eta palavrinha estranha!). Com o advento dos bons modos (prática precursora do politicamente correto) tornou-se necessário rebatizar dezenas de ruas e praças – entre elas, a Rue du Pélican.

Só para dar um exemplo, o nome original da Place de la République era  Place de La Raie Publique (ou Praça das Mulheres Públicas…).  O gosto pelo trocadilho fácil (forma popular de humor) era generalizado.  Quando a Ministra Marthe Richard (estado civil, viúva) fechou as famosas casas de tolerância parisienses, o povo passou a chamá-la de Veuve Qui Clôt (a viúva que fechou).  Quanto à Rua do Pelicano, o nome medieval é chulo demais pra ser reproduzido num blog de mocinha fina.  Tá bom, fina mas nem tão mocinha.

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Paris blanche-neige

Atendendo a (meus) pedidos, neve em Paris

Uma coisa que sempre passou “em branco” pra mim: neve em Paris. Nunca tinha conseguido ver!  A coisa já tinha virado piada: bastava o avião de volta decolar… pra começar a nevar. Quando eu chegava ao meu destino, encontrava vários emails de amigas dizendo que eu havia perdido a nevasca da década ou, quiçá, do século.

Desta vez, enganei um bobo… Acordei hoje, abri a cortina bem devagarzinho e tcham, tcham, tacham, tcham (são quatro tchans, certo?): o telhadinho do prédio ao lado todo branquinho. Nem esperei o café (mesmo porque não tomo café): coloquei o casaco em cima do pijama e lá fui eu pra rua.  Fotografar antes que acabe, ou melhor, antes que vire lama.

Agora estou no lucro: já vi neve em Paris. E, segundo dizem os mentirosologistas, pode nevar muito mais ainda!

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Luzinha deve ser coisa de direita.

100 anos de história

Enquanto a Rive Droite (principalmente os Champs Élysées) está feericamente iluminada, a Rive Gauche permanece quase às escuras. Com exceção das luzinhas (equivocadas) da Rue de Rennes e da maravilhosa coreografia do Hotel Lutetia (foto), não há muito o que se ver do lado esquerdo do Sena.

Mas o Lutetia, uma das primeiras construções Art Deco de Paris, de fato vale a pena. Famoso por atrair famosos, o hotel conheceu “days of fame and days of shame” nos seus 100 anos de história. Os days of shame aconteceram durante a II Guerra, quando o prédio serviu de residência para os oficiais da ocupação.

Com a liberação de Paris (em 1944) o hotel passou a ser usado como centro de repatriação para prisioneiros de guerra. Depois disso, foi totalmente restaurado até voltar à sua antiga glória.

Claro que o preço da diária é um pouquinho salgado, mas passar em frente ou visitar o lobby não custa nada… OK, talvez custe uma taça de vinho. Que obviamente vai estar na casa dos dois dígitos. De euros. Mas também, num lugar com tanta história, o que é que você esperava?

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Fazendo anniversaire de mariage.

Soltando rojão

Não tem como não fazer um pequeno merchã de um maridão que, não só me traz pra Paris pra celebrar nossos 22 anos de casados, como também prepara surpresas num de meus restaurantes favoritos.

Primeiro, um steak tartare em forma de coração. Ah, fiquei tão passada que esqueci de fotografar – mas podem acreditar: ficou uma belezura! E depois, na hora da sobremesa, um gateau anniversaire com direito a “fogos de artifício”. Claro que ele diz que foi coincidência, inciativa do resturante diante de um romântico casal de meia idade (epa!), essas coisas… Vocês acreditam? Eu não!

E mais não digo, porque vou enchê-lo de beijos.

 

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Trazendo lixo de Paris.

 

lapoubelle

5.832 km depois...

 

Paris? Não sei se quero escrever sobre Paris. Talvez pudesse escrever sobre as exposições que visitei. Os filmes que vi. Os restaurantes que saboreei. Mas existe mesmo alguma coisa que já não tenha sido escrita sobre Paris? Outra opção seria lamentar a ausência do outono: pas de feuilles mortes! Mas nada disso. Vou escrever sobre algo inusitado que trouxe da assim chamada cidade luz (chamam ainda?!).

Mas antes o que já trouxe de outras viagens.

Como há 22 anos coleciono objetos e imagens relacionados com uma determinada classe de animais vertebrados, bípedes e ovíparos (mais exatamente, pelicanos) posso dizer com certeza que pelo menos 80% de minha coleção já viajou de um país para outro. Às vezes, pra mais de um. Os menores, confortavelmente instalados em alguma mala ou bolsa; já os maiores, verdadeiros “malas sem alça” que carreguei de um ponto a outro do planeta. Conto de um, que comprei no próprio atelier do artesão (Michelângelo) em Orvieto. O bicho, tá bom, a ave tinha mais de um metro de comprimento. Na verdade, essa era medida da base onde efetivamente se apoiava um pelicano de 60 cm de altura. Ele foi de carro pra Roma; de avião pra Londres; e de lá numa conexão para NY. Parecia um rifle embrulhado, mas felizmente a compra aconteceu antes do 9/11: quer dizer, ninguém criou problema. Exceto minha cara metade, ao fazer de conta que aquele estranho pacote não lhe dizia respeito.

Por que estou contando tudo isso? Porque no meu último dia em Paris – a poucas horas do fechamento da mala – achei um objeto de que estava à procura em NY desde junho: uma lata de lixo cor laranja. Sim, você leu certo: uma lata de lixo (para a cozinha). Na cor laranja. O tamanho? Grande demais para uma mala grande. Nenhuma chance, portanto, de caber na minha – pequena e já bastante ocupada.

Enquanto minha cara metade já iniciava seu processo de negação da realidade (eu não vira uma lata de lixo e muito menos estaria pensando em levá-la pra NY) consumei a compra e pedi à moça que providenciasse um pacote capaz de resistir ao delicados funcionários do setor cargas dos aeroportos de Orly e JFK. Enough said: ela prontamente produziu uma caixa, super-protegida por uma dupla camada de papelão. Não contente, me armei de duct tape, fechei tudo direitinho, criei uma alça… et voilá!  Ou melhor, voei aqui pra NY. O resultado disso? Uma cozinha muito mais bonita. E mais laranja.

 

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Diógenes e o homem honesto.

Onde tudo aconteceu

Onde tudo aconteceu

Como a história abaixo merecia ser contada, pedi que o maridão a escrevesse.

Todo mundo conhece a história de Diógenes, filósofo grego do sec. 4 AC: em plena luz do dia ele costumava caminhar por Atenas, com uma lanterna nas mãos, à procura de um homem honesto. Seguinte, Diógenes: hoje encontrei um.

Chegando a Paris no meio da tarde, tomei um taxi do aeroporto pra Saint Germain. E na hora de pagar a corrida – aflito com o congestionamento que se formava na rua estreita – desci rápido e esqueci minha mochila no banco! E, dentro da mochila, todos meus documentos, cartões de crédito, cartões de débito, agenda, equipamentos eletrônicos, o diabo.

Ao dar pela coisa, obviamente quando o taxi já tinha desaparecido de vista, quase tive uma síncope. Pior de tudo (sempre pode ser pior) é que não havia pedido recibo – o que eliminava qualquer tentativa de localizar o veículo. Mas, no desespero, tentei fazer alguma coisa com a ajuda de dois amigos, embora o esforço me parecesse meio inútil: ligar para uma cooperativa de taxi (sem nenhuma garantia de que fosse a do carro em questão) e perguntar sobre um Toyota preto que saíra 1 hora atrás do aeroporto de Orly em direção a Saint Germain.

Feitos os dois telefonemas, me coloco diante do prédio à espera de um milagre: a cooperativa localizar o carro, o motorista se interessar em voltar, a mochila ainda estar lá, etc, etc.

Bom, enquanto penso em tudo isso, toca meu celular americano! Do outro lado da linha, o motorista (falando um pouco de inglês e um pouco de francês) explica que encontrou minha mochila e revirou os documentos até achar meu número de telefone! Aleluia. Em dez minutos, chega ele com a mochila nas mãos.

E conta sua história: depois de nos deixar, havia levado um novo passageiro até um hotel de Montparnasse. Assim que o passageiro desceu, ele (motorista) descobriu a mochila. Ato contínuo, estacionou o taxi e correu para o hotel na tentativa de devolver a bolsa para o distraído passageiro. Que felizmente a recusou, dizendo não ser  de sua propriedade. Diante disso, não restava outra saída ao motorista senão “fuçar” nos documentos e encontrar meu telefone.

Bem, agradeci-o 50 vezes e procurei recompensá-lo pelo esforço. Depois de despedirmo-nos entre sorrisos, entrei no prédio. Olhei rapidamente a mochila (não o fizera no momento) e me pareceu tudo em ordem.

Passados 20 minutos, decido sair para a rua. E quem encontro na porta? De novo, o motorista! Para melhor vasculhar na mochila, ele havia retirado uma pasta de plástico e colocado no banco. Dentro dela, eu guardava uma série de documentos e também meu talão de cheques… Ele se desculpou por sua falha (imaginem!) e disse que agora não faltava mais nada.Novos apertos de mãos e agradecimentos.

Com a pasta na mão, reentrei no prédio e não pude deixar de pensar em Diógenes. Não sei que resultado o filósofo teve em Atenas, mas hoje, em Paris, eu encontrei um homem honesto.

 

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