February 15th, 2010 | Posted by abrindoobico

Old Town Square
Demorei mais de cinco décadas pra chegar ao lugar de onde escrevo. Nem mesmo os quase 15 anos vividos na Itália conseguiram me animar a cobrir a curta distância que separa Roma de Varsóvia. Quando o Gabriel escreveu sobre a visita dele, eu favoritei sem ler: ainda não estava preparada. Depois a Dri também relatou – e o processo foi o mesmo.
Mas a vontade estava lá: eu sabia que mais dia, menos dia a coisa ia acabar acontecendo. E assim foi. Aproveitando uma viagem ao velho continente, resolvi que era hora.

Old Town Square II
Pedi ajuda ao Riq e aos Trips e, juntando as informações, finalmente aterrissei na terra natal de meu pai. Lugar onde toda a sua família viveu até que a insensatez dos homem a dizimasse. Meu pai só foi poupado porque fugiu na hora certa. Japão, China, depois Brasil.

Vai neve aí?
E nunca falou sobre o passado. Ou falou apenas uma vez – história da qual uma menina de pouco mais de dez anos só conseguiu registrar fragmentos.
Com nada nas mãos, o que fiz foi recorrer a uma espécie de pesquisa.
Antes de vir, escrevi para os órgãos oficiais na tentativa de levantar informação: todo e qualquer tipo de registro relativo a meus avós, meu pai e meus tios. Onde teriam nascido. Onde teriam morado. Em que escola estudaram. O que fizeram no exército. E por aí afora. Mas as respostas foram menos do que satisfatórias.
Na verdade, não sei exatamente o que eu esperava encontrar. Mas vou contar como é que foi até agora.
A primeira coisa que constatei é que, diferente do que aconteceu na Rússia (onde, depois de um dia, desandei a falar como uma moskovita) aqui não consegui ir além das duas palavras que já conhecia desde a infância: gindobre – bom dia; e giankuia – obrigada.
Cheguei num dia cinza – como imagino seja a maioria dos dias invernais por aqui. Acúmulo de neve por toda parte; e os varsovianos soterrados por camadas de malhas, casacos e cachecóis. Acho que eu era a única pessoa sorrindo.
Em pouco tempo, ficou claro que – para obter alguma informação – eu teria que ir ao Arquivo Central. Repartição que obviamente já estava fechada!
Então, por hoje, deixo apenas um mini-fotoblog para atiçar o apetite: um curto passeio que fiz nessa cidade que renasceu das cinzas da guerra tal e qual fora no passado.

Uma emoção difícil de comunicar. A sensação de intimidade que me provoca o pisar o chão que meu pai pisou. E o total estranhamento por não saber nada do que ele tenha feito aqui.