A cidade-luz, à primeira luz da manhã.

Com vocês, la lumière.

Frequentemente… tá bom, às vezes… oquei, muito raramente acordo cedinho em Paris e saio pra fotografar. Cidade vazia, ruas lavadas, sol nascendo, essas coisas óbvias que podem dar uma mãozinha (na verdade, uma mãozona) no resultado dos meus cliques. Caminho a esmo até que a fome me obrigue a voltar correndo.

E de fato a fome vem com tudo, pois é esse o período do dia em que a cidade se reabastece. E dá-lhe reabastecimento: caminhões de verduras, caminhões de carnes, caminhões de queijos, caminhões de doces, caminhões de vinhos, etc, etc.

Cerveja chegando na hora do café au lait.

Então, para ilustrar esse post, escolhi aleatoriamente (portanto, sem nenhuma segunda intenção) um desses caminhões… Ah, e me lembrei de uma história: a primeira vez que vi essa cerveja, comprei correndo uma latinha. De volta a Roma, coloquei-a toda feliz no bar da sala – mas minha alegria só durou até a manhã seguinte. Dando pelo desaparecimento da dita cuja, perguntei à diarista onde estava a cerveja. E ela respondeu na lata: ué! tava vazia, eu joguei fora!

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Duas letras difíceis de encontrar em Heidelberg: WC.

Cinco Euros acima do nível do rio.

Estando em Frankfurt, nada mais adequado do que dar um pulo a Heidelberg, cidadezinha universitária que se espreguiça ao longo do caudaloso Neckar (pô, até que ficou bonito!). Fui de carro – e, como o escritório da Avis era na estação, me perguntei por que cargas d’água não escolhi o trem! Mas já era tarde demais. E lá fui eu, enfrentando as ilegíveis placas de sinalização alemãs (todas com uma economia absurda de vogais). Mas cheguei! Não sem antes dar uma parada no únicobanheiro visitável que encontrei no caminho: o do hotel Marriott (que não nos ouçam).

Bom, Heidelberg é uma gracinha (quem não concordar, levante a mão!). O rio, as ruas de paralelepípedos, a antiga ponte, as pracinhas, as igrejas… e lá em cima, majestoso (não podia ser outro o adjetivo), o castelo. Cuja visita nos obriga, de cara, a tomar uma decisão importante: usar a estradinha, usar as escadas ou usar o teleférico recém-reformado. Nas duas primeiras alternativas, você queima algo em torno de 5.000 calorias. Na terceira, queima 5 euros. Foi com essa que fiquei. Em poucos minutos, estava lá em cima – num cenário que descortina (pô, hoje to esbajando…) todo o vale à sua frente. Lindo o castelo, com as várias épocas arquitetônicas em evidência. Rodei, fotografei, rodei, fotografei… e aí corri de volta para o teleférico, pois os banheiros (a pagamento!) estavam todos fechados. Vai ver que não é costume frequentá-los aos sábados…

De volta ao nível do Neckar, um almocinho rápido (perdoem-me os puristas, mas fui a um chinês delicioso) e back to Frankfurt. Gostei muito de Heidelberg – e com banheiro, então, vou gostar muito mais!

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Piuí-chá-chá-chá. A melhor maneira de ir de cá pra lá ou de lá pra cá.

Trem bala. E põe bala nisso.

Na bagagem, só o necessário – além da necéssaire, é claro! Metrô até a estação. Embarque tranquilo, rodando sua malinha 4 rodas (viu, Riq?) até a plataforma. A bordo, jornais, revistas, eventualmente internet, lanches e bebidas. Na janela, cidadezinhas maravilhosas que você acaba pin-pointing pra voltar. E tudo isso sem deixar a assim chamada “terra firme”.

Aí, duas ou três horas depois, você pode estar na Alemanha, na Holanda, na Inglaterra, na Suíça, etc – com a vantagem adicional de descer no centro da cidade. O que mais pode pedir um turista?! Ah, sim: que o hotel seja perto e bom. É o que geralmente procuro fazer: rodar malinha pela calçada (tá bom, às vezes usando só 2 rodas) até o mais affordable xis estrelas do pedaço (xis, obviamente, podendo variar de país a país).

Enfim, gente: o que estou fazendo é a apologia deslavada do trem. Na Europa, é claro. Sim, vai ser mais caro do que as (in)famous low-cost-airlines. Mas há vantagens imbatíveis. Primeiro, fica aqui no chão. Segundo, você economiza taxi de e para o aeroporto. E terceiro (consequência do segundo) embarca e desembarca no centro da cidade. Ainda não é suficiente? Tá bom, então continue com seu aviãozinho apertado, turbulento e, 80% do tempo, atrasado. Eu vou em frente de piuí-chá-chá-chá.

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A banalidade do mal.

É a expressão de Hannah Arendt que me vem à cabeça enquanto visito Auschwitz: o extermínio de 1.1 milhão de seres humanos levado a cabo por burocratas que “cumpriam ordens”.

Mas não ouso falar disso – mesmo porque, sobre essa fatídica localidade ao lado de Cracóvia, não há nada que já não tenha sido dito. O que quero contar é a minha pequena, específica, pessoal e restrita experiência.

Fui lá pra tentar descobrir sorte de meus avós – fato que até agora desconheço. O processo não demorou mais do que 10 minutos e foi conduzido por um sensível funcionário que me tratou como se meus familiares tivessem desaparecido ontem. Fui informada que duas pessoas com o mesmo nome de meu avô tiveram a infelicidade de ter passado pelo campo. A primeira, em função da data de nascimento, tratava-se seguramente de um homônimo.  A segunda, cujo registro não continha data de nascimento, obviamente deixou uma grande dúvida. Que o mesmo funcionário se apressou em eliminar, fornecendo-me organizações às quais dirigir minhas perguntas. Aprendi que são três as entidades com arquivos ainda mais completos sobre o holocausto: a primeira em Israel; a segunda na Alemanha; e a terceira nos EUA.

Claro que já me perguntei mais de uma vez porque estou fazendo isso. A resposta é muito simples e dispensa elaborações: toda família sabe quase tudo sobre as duas gerações que a precederam.  Eu e minha (reduzida) família queremos saber também.

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Escreveu não leu, símbolo!

Estou vendendo o peixe como comprei – e já, já vocês vão ver que a palavra “peixe” cai como uma luva nessa história. Enfim, o “causo” é o seguinte: por causa do alto grau de analfabetismo reinante no pedaço (alguns séculos atrás, é claro), as construções varsovianas eram identificadas através de símbolos desenhados ou esculpidos nas paredes externas. A casa de fulano tinha um ramo. A casa de sicrano, uma águia. A casa de beltrano, uma figura mitológica. Etc, etc (mesmo porque não sei o que vem depois de beltrano).

Com o tempo, coisa muito natural que acontecesse, os símbolos passaram a identificar atividades (algo como aqueles cilindros meio psicodélicos que, séculos depois, virariam cartão de visita dos barbeiros americanos). Mas voltemos a Varsóvia: apenas ouvida a história, o que é que o guia  mostra como exemplo?  Uma casa em frente com um imenso pelicano incrustado  na parede – um símbolo de caridade cristã que passou a identificar os médicos da cidade. Qualquer problema de saúde, bastava procurar uma casa com a ave de papo grande…

Achei divertida a coisa e, como um neurônio puxa o outro, lembrei-me imediatamente (na verdade, 8 horas depois, durante o banho) de um hospital de Bruges com o mesmo pássaro na parede: o St. Johns Hospital. Em seguida, girei um pouco por Varsóvia pra ver que outro bicho ia dar. E não é que deu! Fotografei vários símbolos, os mais interessantes dos quais eu posto aqui.

Mas não me perguntem o que significam. Nós só ouvimos o exemplo do pelicano – e assim mesmo de bicões (ai!) porque não fazíamos parte do grupo…

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Carnaval em Varsóvia? Tem sim senhor!

Com a Denise e a Paula falando há séculos do carnaval da Pipa; a Majô voltando pra casa de uma maravilhosa viagem; a Flavia se esbaldando no Rio; e o Riq trabalhando arduamente; eu também não quis deixar a ocasião passar (literalmente) em branco.

Então trouxe para vocês, com exclusividade, o Carnaval de Varsóvia – onde ninguém rasga a fantasia… mesmo porque morreria de frio!

Marquês de Sapukaiowsky

Eu quero é botar meu floco na rua...

1º Prêmio, Categoria Luxo.

Só pra fechar: aí, quarta-feira de cinzas.  Aqui, quarta-feira totalmente branca.

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Finalmente um lugar onde não preciso soletrar meu nome.

Repartição pública : só muda a língua.

Gê de gato; Érre de Raquel; Ípsilon de York; Ene de navio; Bê de bola; Éle de Lima; A de Ana; Tê de tatu. Foi assim que a vida inteira eu tive que “explicar” meu sobrenome paterno. Mas hoje, não.

Pode parecer bem pouquinho, mas chegar a uma repartição pública e não precisar s-o-le-t-r-a-r Grynblat quase compensou o fato de (ainda) não ter achado o que procurava. Uma sensação de estar em casa – eu que estou há apenas 24 horas no país!

Tradução, por favor?

E não foi apenas uma repartição. Foram três. Com a ajuda de uma polonesa de nome Graça. Graças a ela, cheguei muito perto de conseguir os documentos que procuro.


Finalmente, algo que entendo.

Mas só perto, infelizmente. O que me leva a concluir, com toda a segurança e nenhuma originalidade, que o serviço público guarda incríveis semelhanças – seja ele brasileiro, italiano, português ou polonês.

Nos três postos aos quais compareci, a primeira palavra foi sempre “não”.  E foi só graças à Graça (ops, tô me repetindo) que conseguimos passar do “não” ao “talvez”.

Nº 11, aniversário do meu pai.

Resumo da ópera (cujo teatro, aliás, fica aqui ao lado do hotel) é que deverei preencher uma requisição explicando o porquê de meu interesse nas informações solicitadas (ou seja, por que quero saber onde meu pai nasceu e morou…).

No problem. Já “estou startando” isso. Vou ter que esperar três meses, mas é sempre mais efetivo do que sair perguntando pelas ruas de Varsóvia: – o senhor conheceu o Henryk Grynblat?

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De volta para o passado

Old Town Square

Demorei mais de cinco décadas pra chegar ao lugar de onde escrevo.  Nem mesmo os quase 15 anos vividos na Itália conseguiram me animar a cobrir a curta distância que separa Roma de Varsóvia.  Quando o Gabriel escreveu sobre a visita dele, eu favoritei sem ler: ainda não estava preparada. Depois a Dri também relatou – e o processo foi o mesmo.

Mas a vontade estava lá: eu sabia que mais dia, menos dia a coisa ia acabar acontecendo. E assim foi. Aproveitando uma viagem ao velho  continente, resolvi que era hora.

Old Town Square II

Pedi ajuda ao Riq e aos Trips e, juntando as informações, finalmente aterrissei na terra natal de meu pai. Lugar onde toda a sua família viveu até que a insensatez dos homem a dizimasse. Meu pai só foi poupado porque fugiu na hora certa. Japão, China, depois Brasil.

Vai neve aí?

E nunca falou sobre o passado. Ou falou apenas uma vez – história da qual uma menina de pouco mais de dez anos só conseguiu registrar fragmentos.

Com nada nas mãos, o que fiz foi recorrer a uma espécie de pesquisa.

Antes de vir, escrevi para os órgãos oficiais na tentativa de levantar informação: todo e qualquer tipo de registro relativo a meus avós, meu pai e meus tios. Onde teriam nascido. Onde teriam morado. Em que escola estudaram. O que fizeram no exército. E por aí afora.  Mas as respostas foram menos do que satisfatórias.

Na verdade, não sei exatamente o que eu esperava encontrar. Mas vou contar como é que foi até agora.

A primeira coisa que constatei é que, diferente do que aconteceu na Rússia (onde, depois de um dia, desandei a falar como uma moskovita) aqui não consegui ir além das duas palavras que já conhecia desde a infância: gindobre – bom dia; e giankuia – obrigada.

Cheguei num dia cinza – como imagino seja a maioria dos dias invernais por aqui.  Acúmulo de neve por toda parte; e os varsovianos soterrados por camadas de malhas, casacos e cachecóis.  Acho que eu era a única pessoa sorrindo.

Em pouco tempo, ficou claro que – para obter alguma informação – eu teria que ir ao Arquivo Central. Repartição que obviamente já estava fechada!

Então, por hoje, deixo apenas um mini-fotoblog para atiçar o apetite: um curto passeio que fiz nessa cidade que renasceu das cinzas da guerra tal e qual fora no passado.

Uma emoção difícil de comunicar. A sensação de intimidade que me provoca o pisar o chão que meu pai pisou. E o total estranhamento por não saber nada do que ele tenha feito aqui.

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